quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Futebol e inconsciente coletivo


“Amanheceu o pensamento/ que vai mudar o mundo/com seus moinhos de vento” Cazuza

A copa aconteceu, e a sabedoria do povo está goleando a nossa nova elite estabelecida, e a antiga também. Primeiro, separou os anarquistas do quanto pior melhor, daqueles que protestam por causas notáveis e necessárias à cidadania. Depois torceu como nunca, cantou o hino nacional à capela e estabeleceu o costumeiro clima cordial que encantou os 600 mil turistas que entraram de avião, e outros estimados 500 mil que passaram pelas nossas fronteiras secas de moto, carro trem ou ônibus. Dando um recado claro: não tentem tirar proveito político deste evento que encarna para nós a pátria de chuteiras. Roubar vocês já roubaram. Agora nos deixem curtir o jogo em paz. O País, portanto, está vivendo uma coisa de cada vez. Não esqueceu as estripulias contábeis de dona Dilma, que está lançando como despesas de saúde e educação, gastos exorbitantes das arenas exigidas pela FIFA. E só está esperando o momento certo para cobrar de novo, o uso correto do dinheiro público, em suas prioritárias agendas.
Gosto de observar como pessoas humildes e não letradas possuem elevado senso de justiça social, e como herdamos isso dos índios brasileiros, que usam o bem estar coletivo como forma de vida. Se alguém enriquecesse na aldeia, com certeza repartiria com suas ocas o novo pib coletivo. Em algum ponto de nossa história passamos a importar a ética do “lobo de Wall Street” em nossas relações de concidadãos- e aí perdemos muito, principalmente parte da tal felicidade, que é o indicador chave. Neste contexto, o futebol aparece como o esporte mais popular do mundo, usa a leveza e a arte como matéria prima, e traz o inconsciente coletivo-aquela aura de euforia pela vitória, ou de tristeza absoluta na derrota, que transpassa mentes e corações à baila como protagonista. Faz crianças aprenderem a cantar o hino pátrio, muitas vezes com um “pátria amada, goiabada salve, salve”. E nos encanta, quando tira um menino franzino de um campinho de terra batida no agreste nordestino, e o eleva à condição de estrela mundial por gramados “nunca dantes navegados”.
O poeta perguntaria: “mas quem tem coragem de ouvir?” idêntica pergunta feita ao vento por São João Batista: Quem ouviu a nossa pregação? Com certeza não foi à elite branca que vaiou as autoridades na pífia abertura dos jogos. Eles tem ouvidos moucos diria meu avô. E visão pior, eu afirmaria. São cegos que cismaram de guiar a Nação. E a riqueza do momento é identificar   o povo de olhos abertos, se desviando das pirambeiras a que são levados diuturnamente.
Quando uma empresa planeja seu futuro, é obrigada a fazer seminários com seus stackholders (parceiros/colaboradores/acionistas) para explicitar a sua visão. Ou seja, como ela quer se ver daqui a algumas dezenas de anos à frente. A própria Fifa –com todos seus senões, nos ensina como planejar para o cenário de 2022. E não aprendemos? Não conseguimos planejar nossas revoluções na educação, e nas áreas sanitária fiscal e política!? É bom frisar que nem sempre foi assim: Juscelino Kubisheck construiu Brasília do nada uma cidade modelo da arquitetura mundial, no cerrado vazio do planalto central em 5 anos e realmente fez 50 anos em 5. E o que ele tinha? rompia em fé e Visão. Que seu exemplo sirva, portanto, de inspiração àqueles que se apresentam agora como alternativa real de poder para realizar as mudanças sonhadas e cobradas durante esta copa do povo.

José Carlos Nunes Barreto
Professor doutor e presidente da ALU-Academia de Letras de Uberlândia
debatef@debatef.com

Os Novos Refugiados

Fazendo uma releitura do livro do professor da Universidade da Califórnia Jared Diamond “Colapso-como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso”, quando peço vênia a meus leitores, para comparar situações que já presenciei - e relato hoje como sobrevivente, do “Vale da morte” em Cubatão- com outras análogas e desesperadoras que estão acontecendo agora no mundo, vividas por centenas de milhares retirantes, fugindo das guerras na Síria, Iraque e Gaza refém das lideranças do Hamas atacadas por Israel, além das infindáveis guerras africanas e do tráfico no Brasil... Com este pano de fundo, reflito sobre a pergunta do autor: “ O que é mais assustador do que o espectro do colapso de uma geração - os restos dos templos abandonados de Anykor Wat, no território de Camboja, das cidades Maias tomadas pelas selvas, ou a vigília sombria das estátuas (Moais) da ilha de Páscoa?”
Há ainda outro panorama catastrófico sugerido pelo mesmo: o horror das pestes que se aproximam, na esteira das crises sociais e ambientais, principalmente a contaminação pelo vírus ebola. Aliás, o único país que pode ensinar ao mundo como fazer gestão pós catástrofe é o Japão pós- Fukushima. Um ano após o desastre, e depois de aplicar um trilhão de dólares em projetos de reconstrução, o País já estava recuperado do pior. Porém nem sempre é assim: vide o pós-tragédia de Petrópolis e Teresópolis no Rio de Janeiro e o Pós- Katrina em New Orleans. Aqui, roubaram as doações aos desesperados, lá, os americanos, que possuem a melhor logística, as melhores tecnologias, deram aquele espetáculo de despreparo... É ou não é para se preocupar? Nosso SUS não aguenta sequer a dengue endêmica, e bancar o nascimento de crianças nas santas casas ao redor do País. Suponhamos uma doença como o ebola, que em uma semana evolui para uma morbidade de 70% dos casos!
Em Cubatão, nas décadas de 70 e 80,eu, engenheiro, aos 33 anos, na chefia da produção de aço da Cosipa, hoje Usiminas, não tinha a exata noção de tudo aquilo. Mas meus dirigentes tinham. Haviam comprado um equipamento absoleto francês sem o lavador de benzol -cancerígeno- e esconderam isso da sociedade. Nas favelas ao lado da fábrica - anomalias em fetos (anencefalia) eram noticiadas dentro e fora do País, todavia o ar que respirávamos era o mesmo, e muitas colegas choravam dentro da fábrica, ao ficarem grávidas.
E pensar que a recuperação ambiental daquele polo sídero - petroquímico, e do entorno da serra do mar, por uma equipe multidisciplinar- da qual tive a honra de fazer parte, livrou nosso principal parque industrial de ser, hoje, uma ilha de Páscoa - e as fábricas de lá, de serem nossos Moais. Nessa hipótese, nas décadas “perdidas” de 80 e 90, doentes de câncer e refugiados ambientais, teriam sido retirados daquele município, correndo dos deslizamentos da serra do mar, também sobre as demais cidades da baixada, e o porto santista. Graças a Deus, e às tecnologias multidisciplinares da Engenharia e da saúde ambiental da USP, e Academia brasileira, isto não ocorreu. Que um possível novo governo de oposição, as usem em favor da sociedade no Brasil, para evitar novos quadros de refugiados ambientais e sociais previstos na poderosa visão de Jare Diamond.

José Carlos Nunes Barreto
Professor doutor e presidente da Debatef Soluções e Conhecimento
debatef@debatef.com


A Revolução dos Bichos e o PT

      No último feriado, escolhi como releitura “A revolução dos bichos“ de George Orwel, e o que mais me chamou a atenção, foram os dois pósfácios escritos pelo autor: o primeiro reeditando o prefácio de 1945 endereçado à inteligência britânica e americana, o segundo de 1947, endereçado às pessoas comuns da URSS. Em 1945, a Rússia era aliada dos ingleses e americanos contra o nazifacismo, e por isso o constrangimento foi geral quando identificaram na fazenda dos bichos, o regime centralizador da Rússia, e em seus dirigentes, os porcos que comandavam. Orwel em sua bela sátira, analisa a teoria de Marx do ponto de vista dos animais, em contraponto à dominação humana, fazendo clara alusão à experiência soviética como um todo. Daí o choque de frente com a “real politik” ocidental, com sua elite preferindo “acreditar” nos relatos fantasiosos que a imprensa vermelha estatal fazia dos processos de Moscou. Esses países não quiseram “sujar as mãos” e recontar a história mudada pela propaganda comunista, e por isso o autor, inconformado, a transformou em uma estória de bichos, que se rebelaram contra seu dono e o expulsaram da fazenda, assumindo eles mesmos a gestão da produção.
      Escreveram sete mandamentos, e à medida que o bonapartismo da liderança dos porcos fica claro, a lei vai sendo mudada para favorecer os ocupantes do poder. Uma comunicação atroz, faz as ovelhas se convencerem, que alguns bichos são mais iguais que outros, por isso “merecem” algumas regalias. Depois, mais e mais poder centralizador, concentração de renda, a tal ponto que os bichos de quatro patas até já estariam andando de pé, como os homens do “ancién regime”. E suas atrocidades e expurgos até extrapolam o que se fazia antes, e que se tornara motivo da tal revolução.
Refletindo sobre o assunto a fim de interpreta-lo para o Brasil de hoje, relembro da revolução que nós, como os bichos dessa estória, pensávamos que faríamos quando colocássemos o PT no poder. A primeira mudança dos “mandamentos” veio na “Carta aos Brasileiros”, quando descobrimos que a política econômica seria a mesma do governo anterior. Depois de decepção em decepção, até ao mensalão e à ameaça do impeachment do porco mor foi um pulo. Aí veio a propaganda e procurou apagar e esconder do povão os podres do atual regime, e anão ser para os bem informados e que podem comprar jornais, revistas e conteúdo na internet, conseguiu-se a maioria eleitoral com a gestora do governo anterior, que embora desconhecida, surfou na onda do seu criador-um fenômeno de comunicação de massas. Pois bem, já se foram os cem dias do governo Dilma e o pior não aconteceu. Acho até que ela foi muito bem ao trazer de volta a austeridade ao cargo presidencial, e trabalhar direitinho todos os dias, dando o exemplo que faltava aos trabalhadores deste país. A popularidade está em alta por isso, primeira mulher no governo, cuidadosa, austera, sem estrelas que pudessem mandar mais que ela. Mas os resultados estão pífios. Seus projetos não decolaram. O PAC aí está com seus absurdos. Como o trem bala sem pé nem cabeça e A exemplo do que aconteceu com a elite americana e européia na década de 40, a nossa intelligentsia, nossa mídia, nossas sensatas lideranças, parece que já foram cooptadas pelo carisma maligno deste Napoleão de São Bernardo, e não estão querendo “sujar as mãos”. Por outro lado o País anseia por respostas para questões candentes como segurança pública, saúde e educação, muito mais que sentar no G20 da ONU, pois para pensar em liderar o mundo, precisamos primeiro cuidar de nós mesmos, pois ao contrário da fábula, não existem homens que são mais iguais que outros.

José Carlos Nunes Barreto
Professor doutor

debatef@debatef.com.br