quarta-feira, 22 de abril de 2015

O Nobel da Arquitetura



“Criações, sejam elas crianças, poemas ou organizações, têm vida própria.” Starhawk

Arquitetura é a arte de criar espaços organizados e animados, por meio do agenciamento urbano e da edificação, para abrigar diferentes tipos de atividades humanas(Aurélio)Para isso o candidato a arquiteto têm de fazer uma prova de habilidades específicas, que exige  saber desenhar e ter uma visão espacial desenvolvida. É necessário também aguçada sensibilidade na utilização de cores, sombras, e saber criar. Por fim, ao longo de cinco anos de estudos em uma grade de matérias que lhe farão entender a história da arquitetura, e através dela o conjunto de obras realizadas em cada continente, cada civilização, cada época. Aprender a dar conforto ambiental à suas edificações, saber dispor os elementos de um espaço urbano, usando princípios, normas técnicas e materiais adequados. Será um artista da função, do belo e da forma.

Convivo com a alma do(a) arquiteto(a) há dezenas de  anos. Como professor há dez anos. Como profissional de engenharia e arquitetura há 30,com destaque para os seis anos como diretor e presidente de uma associação de Engenheiros e arquitetos, seis anos como inspetor – chefe do CREA SP em Cubatão SP, além de quatro anos como conselheiro estadual no CREA SP além de um ano como Chefe da assessoria técnica no CONFEA em Brasília. Há diferenças gritantes e complementares entre engenheiro(a)s e arquiteto(a)s. Que “brigam” desde sempre. Mas a sabedoria faz o bom engenheiro(a) arquitetar, e apesar da  ciumeira, consegue-se fazer um bom arquiteto(a) engenheirar.

Na oportunidade em que Paulo Mendes da Rocha-inquieto, agitador, aplicador de soluções estéticas em locais de pouca delicadeza, incômodo para o estabelecido- recebe em Istambul o prêmio Pritzker – considerado o Nobel da arquitetura, não poderia deixar de louvar esta classe, principalmente por teimar em criar e acontecer apesar do custo Brasil ou seja, o custo da margem e da pouca visibilidade, nas palavras de Teixeira Coelho(Autor de “Niemeyer” ed.Iluminuras) no caderno Mais da folha de SP de 16/04/2006.

Tive contato com a obra de Mendes da Rocha durante a visita aos pavilhões da Mostra “Menos estética mais ética” na 7a Mostra de Arquitetura da Bienal de Veneza em 2000,e fiquei assombrado, ao lado de  um filho arquiteto e urbanista, Gustavo Henrique Garcia Barreto, a quem homenageio. Esta convivência me faz entender melhor o papel da inovação e da criação como matéria prima dos processos de produção hipercompetitivos, e que Sthefen Covey (autor de “Os sete hábitos de pessoas altamente eficazes - ed. Best Seller)chama de Criar Sinergia, ou o sexto hábito eficaz para se chegar a  uma vitória pública. Sair da dependência exige segundo o autor, desenvolver primeiro a integridade, que seria a  vitória particular (sendo proativo, tendo imaginação e partindo para a ação planejada),depois o ganha -ganha ,o entendimento do outro, além da sinergia, completam o instrumento que deve ser constantemente afinado para configurar uma aspiral ascendente de sucesso. Aos 78 anos Mendes da Rocha é como um menino ao criar. Aos 97 Niemeyer também. Para eles somente “o céu é o limite”. Picasso e Michelângelo os esperam lá. E que demore!

José Carlos Nunes Barreto
Professor doutor

debatef@debatef.com.br

Os Ciclos da Vida



A vida é um ciclo, os antigos já diziam. Fui refletir sobre isso e me veio uma série de questões. Quando alguém pergunta quantos anos você tem, na verdade quer saber quantas voltas você deu em torno do sol. O próprio sol leva seu colar planetário em direção à constelação de Hércules, em um outro ciclo . Nosso coração bate 100 batidas por minuto, por exemplo. Temos nossos relógios internos-biológicos, todos comandados pela alternância claro escuro. Através da retina, ativamos um grupo de neurônios situados na base do hipotálamo, que disparam ordens para nosso marca passo circadiano(diário).Os ciclos hidrológicos de rios e bacias também interagem a medida que a terra se aproxima ou se afasta do sol. No inverno muitas águas, no verão secas. A ação do homem, através de hábitos modernos com o corpo e com o uso indiscriminado de recursos do planeta, está alterando  estes ciclos de forma caótica. O uso do carbono contido na queima de carvão e petróleo, está aquecendo o planeta como uma chapa quente. Degelando geleiras e destruindo complexos sistemas estuarinos marinhos em todo planeta, verdadeiros berçários de biodiversidade. Além disso as engenharias feitas sem conhecimento e sensibilidades ambientais geram  desastres climáticos como o de New Orleans. As obras de retificação do rio Mississipe fizeram os engenheiros americanos drenar milhares de Kms quadrados de pântanos e mangues, que hoje se sabe, seriam fundamentais para quebrar a força das ondas do mar agitado por furacões. Tiveram de fazer um dique, que como se viu não aguentou. O próximo terá que resistir furacões de grau 5, o que  levará 20 anos. Já era.

Trazendo para nosso ethos industrial-urbano a experiência desta prosa, pergunto quantas veredas foram aqui aterradas para se fazer pátios e ruas totalmente impermeabilizados?  Claro que as águas escorrem para a bacia dos Rios, pelos córregos tributários, a maioria canalizados sob ruas e avenidas,  insuficientes para comporta-las. Esta ação maluca de impermeabilizar o solo está mexendo no ciclo hidrológico. Aumentando a evaporação sobre a cidade, fazendo chuvas cada vez mais fortes. E ao mesmo tempo não permitindo que estas percolem no solo. Eis o desastre. Faça você mesmo as contas: são bilhares de caixas d’agua de 1000 litros  se movimentando. Só caros piscinões poderão quebrar esta velocidade, até que se desmate mais e se impermeabilize mais.

Também é preciso rever comportamentos e atitudes que não levem em consideração o ciclo circadiano do corpo humano. A sociedade está cada vez mais noturna e há quem troque o dia pela noite. O pai da cronobiologia - Ueli Schibler, adverte que estudos ainda não validados, demonstram que pessoas que trabalham em turnos diurnos e noturnos alternados seriam mais sujeitas a tumores de cancer. Eis aí a questão. O rico de se morrer de câncer hoje é de 1/25, por enquanto. Só para comparar, o risco do avião legacy bater no boeing da Gol era de 1/200 milhões. Prolifera-se a doença, que os antigos nem falavam o nome. E o cerne do problema está no nosso modo de vida. Finalizando, é necessário estudar para compreender, legislar para agir e respeitar todos esses ciclos porque são a própria vida. A outra opção é a morte.

José Carlos Nunes Barreto
Professor doutor

debatef@debatef.com.br

Viver não dói, Dr Bernardo!



Algumas experiências acontecidas desde que passei a escrever com frequência na mídia impressa, são muito interessantes, cativantes. E por serem por demais significativas é impossível guardá-las só para mim.Q uando escrevi “Hotel Ruanda ”recebi um e-mail de alguém ligado à raízes islâmicas-lindo-dizendo que eu seria a voz também do seu povo. Não há dinheiro que pague uma palavra de carinho de uma leitora que se viu em algumas linhas escritas por este escriba ano passado em “Namorado”. Semanas atrás escrevi sobre ”O absurdo do assédio moral” e citei como exemplo o professor Bernardo Bernardino. Um negro. Recebi e- mails do movimento negro pedindo os telefones de Bernardo, que eu não tinha. Depois fiquei sabendo, com alegria que o mesmo se recuperara, através de um e-mail de agradecimento do próprio Bernardo. Que me emocionou. E por isso divido esta emoção com vocês: “Agradecimento”. Prezado amigo Barreto, muito obrigado pelo seu artigo e pela consideração de um velho e bom amigo. A vida foi cruel demais para comigo quando entrei para a lida sindical. A humilhação constante a que fui submetido pela direção da UNITRI,chegou até a minha alma. Foi quando aconteceu aquele “acidente” comigo. Mas já estou  me recuperando. Estou na casa de minha mãe (dá o endereço e o telefone). Mas vou ter de me tratar com psicólogo e psiquiatra por dois anos além de tomar remédios muito fortes. Estou vindo do INSS e não pude ser atendido porque a instituição não deposita o mesmo desde 2001. Tive de voltar em casa e levar todos os meus holerites para provar que o mesmo foi tirado do meu salário. Acho que amanhã vão fazer uma auditoria lá . Reze pela minha recuperação. Um abraço Bernardo. ”Liguei depois e falamos por 10 minutos. O encorajei a continuar vivendo. Mas em casa refleti e resolvi tomar emprestadas as palavras do poeta Carlos  Drumond de Andrade. Peço vênia para citá-lo a seguir:

”Viver não dói.

Definitivo, como tudo que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
Mas das coisas que foram sonhadas
E não se cumpriram


Sofremos por quê?

Porque automaticamente esquecemos
O que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções
irrealizadas,  por todas as cidades que gostaríamos
de ter conhecido ao lado do nosso amor e não
conhecemos, por todos os shows e livros e silêncios
que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos
por todos beijos cancelados,
pela eternidade.

Sofremos, não porque
nosso trabalho é desgastante e paga pouco,
mas por todas as horas livres
que deixamos de ter para ir ao cinema,
para conversar com um amigo,
para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos
Mas porque o futuro está sendo
Confiscado de nós
impedindo assim que mil aventuras
nos aconteçam
todas aquelas com as quais sonhamos e
nunca chegamos a experimentar.


Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso:

Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo,
Mais me convenço de que o
Desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
faz perder também a felicidade.

A dor é inevitável
O sofrimento é
Opcional”.
 
José carlos Nunes Barreto
Professor doutor

debatef@debatef.com.br

sábado, 18 de abril de 2015

Freakonomics ou Eureca!

“Desconfie sempre da sabedoria convencional. O senso comum precisa ser confrontado com perguntas, muitas perguntas...” Steven Levitt- Num dos meus recentes artigos tomei emprestada , a forma de ver o mundo do premiado professor Steven Levitt, (co-autor de Freakonomics) da Universidade de Chicago, quando em suas análises de extrema simplicidade, desvenda o lado oculto das coisas. Me refiro à questão do aborto: A legalização do mesmo em 1973 trouxe como benefício acidental a queda da criminalidade nos EUA. Este é um fato constatado em dados estatísticos no seu trabalho que ganhou a prestigiosa medalha John Bates Clark,que é uma ante-sala do prêmio Nobel. Neste estudo Levitt demonstra que a legalização do aborto foi responsável por metade da queda da criminalidade nos anos 90.Explica-se: Com esta medida se impediu o nascimento de milhões de crianças pobres e principalmente indesejadas, muitas vezes filhas de mães solteiras. Condições que matematicamente aumentam a probabilidade do ingresso do menor ,em uma vida de crimes. A esquerda acusou-o de propor medidas racistas e eugenistas(ou seja eliminar os negros, índios,e minorias). Os conservadores acusam o professor ,de ser propagandista do aborto. Também a este escriba, por ter afirmado que a igreja, notadamente a romana, tem que assumir suas responsabilidades por impedir o aborto( entre outras tantas medidas contraceptivas importantes e que evitam a gravidez sem precisar chegar a este extremo de matar um feto ) .Como cristão não recomendaria o aborto. Mas estou trabalhando sobre dados e fatos científicos que não podem ficar na penumbra, neste momento de caos e reflexão sobre a segurança pública. As igrejas como integrantes da sociedade não podem fugir a este debate em função da sua responsabilidade ao guiar seu rebanho. Não teremos recursos para construir presídios de segurança máxima para tanta gente, que seria boa caso nascesse num ambiente de amor, exemplos e compreensão do lar ou de sucedâneos. Tudo que fizermos atualmente será pouco, porque juntamente com esta política pública deveria haver outras “casadas” como a descriminalização das drogas para acabar com este mercado do inferno. Muita gente já pregou no deserto: Al capone, um mito por sua força mafiosa, só existiu por causa da lei seca nos EUA. Uma simples aplicação da lei de oferta e procura, como sabemos hoje. Então não adianta me atacarem por causa do aborto. Acho que antes disso o estado, a sociedade ,a igreja que somos todos nós, deveríamos aplicar a prevenção para principalmente evitar a epidemia de grávidas menores e com problemas de insegurança alimentar(vide última pesquisa IBGE sobre o assunto) Este é um momento crítico em que além de, ter fé em Deus, e rezar , fazer o bem é assumir escolhas cruciais para os próximos 20 anos: Votar certo; educação de qualidade em tempo integral com formação tecnológica tipo SENAI; Merenda escolar reforçada; Primeiro emprego para valer (não esta vergonha do PRONATEC da Dilma );Políticas de adoção de orfãos com os paradigmas de mercado , e tendo o estado apenas como regulador. Como diria meu avô: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. -José Carlos Nunes Barreto Professor doutor e Presidente da Academia de Letras de Uberlândia-ALU debatef@debatef.com

Filhos do Universo


“Quando os justos triunfam há grande alegria,mas,quando os ímpios sobem,os homens de bem escondem-se” Salomão em Prov.28:12

A propósito da tensão entre as duas Coréias. E dos testes nucleares da Coréia do Norte a lançar brumas de guerra no horizonte, me lembro do muro caído de Berlim .Dos carros todos iguais do lado oriental passando em levas para o lado ocidental. Em 1990 estive lá a tempo de tirar uma lasca do muro (Que guardo até hoje) e de viajar pelo lado oriental, para ver de perto a obra do atraso comunista: escassez de alimentos, degradação ambiental, atraso institucional, tecnológico e político. O mesmo observamos hoje no lado norte coreano. Com ajuda de um satélite qualquer à noite, vemos a Coréia do sul, totalmente iluminada. Pelo progresso e pela sociedade livre. O norte jaz em trevas. Da falta de investimento em energia. Do pensamento único. Da falta de oportunidades e de liberdades constitucionais. Todos tem um dono. Um falso Deus. (Que já foi simpático à maioria)Pequeno e obtuso, hoje governa com mão de ferro tirando dinheiro da alimentação de seu povo para construir armas nucleares com a clara intenção de afrontar seus vizinhos e os EUA. Muitos governantes como ele, no poder são picados pela mosca azul, e “se acham”. No Brasil então, a tentação do autoritarismo é muito maior. A tal ponto do ex-presidente Lula, em conversa com um empresário próximo do poder, pedir para que este não acordasse seu demônio interior, se "não fecharia o Congresso e faria as reformas que precisam ser feitas”. A questão toda é que, neste caso, estaríamos numa ditadura de esquerda, tal qual a de Fidel, ou a de chavez. E estas são as trevas mostradas acima. Os mais pobres é que sofreriam mais. Por isso devem pensar neste “desabafo” de Lula antes de votar. A lição a seguir, vai principalmente para os que ainda precisam usar o “bolsa família”. Apesar dos ditadores, ela chegou até nós desde 1927-Desiderata, poema de MaxEhrmann’s :

“Siga tranqüilamente entre a inquietude e a pressa, lembrando-se que há sempre paz no silêncio. Tanto que possível, sem humilhar-se, viva em harmonia com todos os que o cercam. Fale a sua verdade mansa e calmamente e ouça a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes – eles também tem sua própria história. Você é filho do Universo, irmão das estrelas e árvores. Você merece estar aqui e mesmo que você não possa perceber a Terra e o Universo vão cumprindo o seu destino. Evite as pessoas agressivas e transtornadas, elas afligem nosso espírito. Se você se comparar com os outros você se tornará presunçoso e magoado, pois haverá sempre alguém inferior e alguém superior a você. Viva intensamente o que já pode realizar. Mantenha-se interessado em seu trabalho, ainda que humilde, ele é o que de real existe ao longo de todo tempo. Seja cauteloso nos negócios, porque o mundo está cheio de astúcia, mas não caia na descrença, a virtude existirá sempre. “Você é filho do Universo, irmão das estrelas e árvores. Você merece estar aqui e mesmo que você não possa perceber a terra e o universo vão cumprindo o seu destino.” Muita gente luta por altos ideais e em toda parte a vida está cheia de heroísmos. Seja você mesmo, principalmente, não simule afeição nem seja descrente do amor; porque mesmo diante de tanta aridez e desencanto ele é tão perene como a relva. Aceite com carinho o conselho dos mais velhos, mas seja compreensível com os impulsos inovadores da juventude. Alimente a força do Espírito que o protegerá no infortúnio inesperado, mas não se desespere com perigos imaginários, muitos temores nascem do cansaço e da solidão. E a despeito de uma disciplina rigorosa seja gentil para consigo mesmo. Portanto esteja em paz com Deus como quer que você o conceba e quaisquer que sejam seus trabalhos e aspirações, na fatigante jornada da vida, mantenha em paz com sua própria consciência. Acima da falsidade, dos desencantos e agruras, o mundo ainda é bonito, seja prudente. Faça tudo para ser feliz.”

Jose Carlos Nunes Barreto
Professor-doutor

debatef@debatef.com

sexta-feira, 13 de março de 2015

Mães para sempre.

“Oh, maternal amor, amor que ninguém esquece, maravilhoso pão que Deus reparte e multiplica.” (Victor Hugo)


             Dia das mães chega de novo,  e representa depois do Natal, a segunda data mais importante  para o comércio em geral. E a dura realidade é que deixamos todos de refletir sobre o imaterial e sagrado, representado em nossas mães, para ceder ao consumismo desenfreado, frouxo de afetos e mutilado por culpas.

              Escrevi meu artigo anterior, falando sobre a “Casa do Pai”, e evoquei a cultura judaico cristã - houve quem perguntasse, porque não “Casa da Mãe”? Então respondo com este arrazoado, afirmando claro e bom som, que a casa é dos dois - um de cada vez e respeitando suas individualidades. Para tanto, relembro duas mulheres da bíblia. A principal delas é Maria, mãe de Jesus, e a outra veremos a seguir.  

              A Pietá de Michel Ângelo, que tive o prazer de curtir dentro da Catedral do Vaticano, inebria e nos faz parar no tempo, não somente  porque é uma obra de arte- mas pela aura da paixão de Cristo, e do sofrimento de sua mãe, Maria,  ali representada amparando seu filho Deus, desfalecido- uma mãe nunca desampara um filho - mesmo alguém que era Deus e fez milagres como o multiplicação dos pães,  deu vistas ao cegos, ressuscitou mortos, e estava na criação do mundo com o Pai e com o “Espírito que pairava sobre as águas”. Mas a bíblia não nos permite esquecer outra mulher, que está na linhagem do salvador do mundo, e era uma prostituta-Raabe- que apesar desta condição, fez o seu papel na história, de tal forma que gerou descendentes e o mais importante deles é o Senhor  - queiram ou não os exegetas domingueiros  , loucos por “power point”  vazios, calvinistas ou não.

            Mas neste dia consagrado à quem deu à luz, homenageamos a mulher guerreira e linda, que pode ser a leitora  deste artigo, ou minha mulher, por exemplo. Pensar que de cada uma de vocês , sairam pessoas que constroem  dia a dia o futuro; e que seu útero, casa de todos nós, é o refúgio psicológico de todo ser humano que foge da crise, da dor, da solidão e  da falta de amor. Bem ensinava Vitor Hugo : Deus dá  nossa mãe, como um pão –maná de amor, que reparte e multiplica, o que a sabedoria e simplicidade de meu avô  traduzia assim: uma mãe cuida de oito filhos-como a minha, adorada , e aqui reverenciada- mas oito filhos não cuidam de uma mãe: e filhos há que até fogem delas quando envelhecem, não dão o pão de cada dia e remédios, e muitas vezes  as depositam num frio asilo, onde morrem por causa do desprezo. 

             Todavia, graças a Deus, para a maioria de nós, filhos, o que queremos é uma mãe for ever, tal como magnificamente registrado no poema “Para Sempre”, do imortal Carlos Drumond de Andrade, que me ajuda a finalizar este  artigo, como um presente para todas elas: 

            Por que Deus permite/que as mães vão-se embora?/Mãe não tem limite, é tempo sem hora,/luz que não apaga/quando sopra o vento/e chuva desaba,veludo escondido/na pele enrugada,/água pura, ar puro,/puro pensamento. 

      Morrer acontece/com o que é breve e passa/sem deixar vestígio./ Mãe, na sua graça,/é eternidade./Por que Deus se lembra- mistério profundo -de tirá-la um dia?/Fosse eu Rei do Mundo, baixava uma lei:/Mãe não morre nunca,/mãe ficará sempre junto de seu filho/e ele, velho embora,/será pequenino/feito grão de milho.


José Carlos Nunes Barreto

Professor doutor e Presidente da Academia de Letras de Uberlândia(ALU)

debatef@debatef.com

quarta-feira, 11 de março de 2015

Xingú ou Pandora?

Vi o filme AVATAR duas vezes, e passei um trabalho em seguida, para meus alunos de graduação analisarem a estratégia deste excelente projeto,   que evidencia, em termos  de produção cinematográfica, um divisor de águas, com quebras de paradigmas, e temas que nos fazem pensar. É mandatário frisar que sua amplitude de correlação, ultrapassa os limites da telona, e o próprio Cameron provou isso, ao visitar a volta grande do Rio Xingu, que secará durante boa parte do ano, após o barramento do Rio, para a construção da represa de Belo Monte, pois fica a juzante de suas turbinas. Um impacto ambiental a um custo  de 39 bilhões de reais, enquanto o governo fala em 19 bilhões.Com esta dinheirama toda, e com calma, melhoraríamos ainda mais nossa matriz energética, apoiando projetos diversificados, como os de energia de cogeração, solar, biogás, hidrogênio, e PCHs-pequenas centrais hidrelétricas pelo país afora, sem repetir o modelo centralizador, e pai de todos apagões que Belo Monte representa.

O cineasta de Avatar viajou 12 horas de barco para ver de perto o problema, e fez o que muito brasileiro não faz: se solidarizar com um povo que habita aquele lugar mágico desde épocas imemoriais.

Seria bom que todo cidadão do mundo,  principalmente os formadores de opinião, acessassem o conteúdo disponível em http://tinymrl.com/ykjplsu ou em http://internationalrivers.org/files  sobre as 230 páginas com fundadas  críticas ao EIA –Estudo De Impacto Ambiental- da usina de Belo Monte, feita pelos mais respeitados especialistas doutores - cientistas que tem estudado aquela  região há dezenas de anos.

É importante neste momento, deixar claro que não somos contra  projetos hydropower- por definição, energia obtida pelo uso da energia de rios e cursos d’agua. Somos contra o ”custe o que custar ”eleiçoeiro que esta obra traz, o “tem de acontecer” porque uma de suas mentoras, a ex – ex ministra de Minas e energia  é, agora candidata à presidente. Por conta dos primeiros embates no Planalto, a ex-ministra do meio ambiente da república foi defenestrada do cargo, pois seus questionamentos atrapalhariam a carreirista de plantão. Agora a obra, cuja relação custo benefício não resiste a mais simples análise, estará sendo feita a toque de caixa, como foi o seu EIA RIMA, cujas inconsistências são mostradas neste estudo crítico, com o  “objetivo de evidenciar para a sociedade, as falhas, omissões e lacunas destes estudos(EIAs) e com o elevado objetivo de subsidiar um processo decisão, que se esperava fosse pautado pelo debate público - sério e democrático”. Todavia ,segundo ao instituições que trabalharam no painel, “o próprio processo de disponibilização do EIA RIMA foi marcado por estranha celeridade, e cheio de atropelos, que se interpuseram ao processo de discussão, limitando-o, secundarizando-o e, assim, desservindo aos avanços já estabelecidos na legislação brasileira”.

     Como a arte imita a vida, em Avatar os interesses imediatos e mesquinhos  fizeram alguns senhores do “stabilichment” atacarem e destruirem um povo e seu rico habitat –Pandora, que era o futuro em termos de princípios ativos contra doenças e processos naturais com retornos bilionários  e sem ferir a floresta. Aqui, o Xingu é tudo isso, além de ser nosso e das futuras gerações.

José Carlos Nunes Barreto
Professor doutor

debatef@debatef.com.br